Aquele que Não Ama a sua Solidão Não Ama a Liberdade

dezembro 24, 2017 Off Por O Martelo de Nietzsche

“Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre (…) Cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.” Schopenhauer

Falar sobre solidão é também falar de individualidade e amor próprio. Sartre dizia que se você estiver sozinho e não se sentir bem, cuidado, você não está em uma boa companhia, em outras palavras: a solidão não deve ser encarada como algo negativo em sua vida, pelo contrário, ela permite a reflexão de quem nós somos, como disse Schopenhauer : “a solidão revela o nosso ser.”

Nietzsche diz: “Não ouse roubar a minha solidão, se não fores capaz de me fazer real companhia.” Não podemos roubar a solidão de ninguém, se nós não podemos oferecer  uma verdadeira companhia, isto é, querer estar com a pessoa pelo simples desejo amigável, totalmente desinteressado. Talvez você diga que tudo nessa vida acontece apenas no campo dos interesses pessoais. Não podemos generalizar!

Não há vida sem dor, sofrimentos, decepções ou ilusões.

Nenhuma dor é para sempre, nenhum sofrimento é eterno. Nós podemos aprender com as quatro  nobres verdades do Budismo que tudo nessa vida  tem uma causa, motivo e fim. Nem mesmo o estado de solidão é eterno, nosso fim é a morte. Na vida tudo flui! É tudo muito incerto, é tudo muito imprevisível.

O caminho da sabedoria e lucidez de espirito se faz com meditação, momentos de solidão consigo mesmo. Ninguém dorme estressado e acorda solene e sábio.  A famosa “paz de espirito” é um processo  gradativo. Entender essa realidade, às vezes é quase insuportável, dá uma vontade enorme de desistir, mas nós sabemos que esse não é o caminho prudente.

A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até em uma prisão, e a estar sozinhos até no meio da multidão.

Zaratustra diz que:

A solidão, para alguns, é abrigo do doente. Para outros, a solidão é o abrigo contra o doente.
Ainda que tenham me ouvido tritar e suspirar com o frio do inverno, todos esses pobres diabos de olhos turvos que me rodeiam, com tais arrepios e suspiros, fujo de seus quartos aquecidos.
Podem muito bem lastimar e ter dó de mim por causa de minhas frieiras e que me desprezam dizendo: “Acabará por se congelar com o gelo do seu conhecimento!”
Eu, entretanto, corro de cá para lá, com os pés quentes, sobre meu Monte das Oliveiras. No recanto ensolarado de meu monte de oliveiras canto e escarneço de toda compaixão.

Nietzsche mostra por meio do seu profeta poético Zaratustra, os ensinamentos do espírito livre, ele atingiu tal nível de distinção que poucos podem desfrutar de sua companhia, mas também porque, acima de tudo, aprendeu a amar sua própria companhia, em vez de temê-la. Quando você está consigo, você sente-se em casa, onde quer que esteja.

Nietzsche também diz em A Gaia Ciência que : “para um homem devoto não existe solidão – esta invenção foi feita somente por nós, os sem-Deus

Enfim, podemos concluir que  viver sozinho, significa dizer que a solidão é, antes de mais nada, restauradora. Chegar a casa, fazer um café ou tomar um chá, ler um bom livro, escutar uma boa música, sem dúvida, é um descanso da vida social, dos deveres, das obrigações  protocoladas , das máscaras que nós vestimos tantas vezes em público.

A solidão é necessária, para acalmar, revigorar, repousar…  Sobretudo é preciso compreender o caráter sublime da solidão, que impede que nos percamos em fluxos que não são nossos! Sem ela, estaríamos perdidos, cairíamos numa mistura indefinível, da qual não se pode tirar nada. Na solidão, tudo se tornaria homogêneo.

O vazio  assusta! De fato, nós temos medo de perder aquilo que duramente  anos conquistamos a sós: nós mesmos. Por isso, Nietzsche tinha muito horror ao medíocre, ao igual, àquilo que não se distinguia. E também por isso precisamos aprender a cultivar nossa solidão, como uma possibilidade de distinção, como uma possibilidade de criação de si, do diferente.

Devemos atravessar o vazio de nossa própria solidão.

Quem está só? — O temeroso não sabe o que é estar só: atrás de sua cadeira há sempre um inimigo. — Oh, quem poderia nos contar a história do fino sentimento que se chama solidão!” – Nietzsche, Aurora, §249

Por: O Martelo de Nietzsche